Uma banana madura pode apressar outras frutas, mas não todas

O etileno liberado pela banana funciona como sinal para frutos sensíveis. O pesquisador Ricardo Alfredo Kluge, da ESALQ/USP, explica por que o efeito depende da espécie e do estágio da fruta.

Ilustração editorial sobre banana madura acelera outras frutas.
Ilustração editorial do fenômeno explicado na matéria. (Imagem: Ilustração).

A banana libera etileno, um gás que pode acelerar mudanças de amadurecimento em frutas que respondem a esse sinal.

Em entrevista ao Sabia Essa?, Ricardo Alfredo Kluge, docente e pesquisador em fisiologia pós-colheita da ESALQ/USP, explica: “O etileno é um hormônio vegetal gasoso. A própria fruta pode produzi-lo e, por ser uma molécula pequena e volátil, ele também se difunde pelo ar ao redor.”

Etileno é um sinal que viaja pelo ar

Em frutos chamados climatéricos, como banana, maçã, manga, mamão e abacate, o etileno atua como sinal que coordena uma série de mudanças associadas ao amadurecimento e pode estimular ainda mais a produção de etileno pelo próprio tecido. É por isso que uma banana madura, que libera esse gás, pode acelerar o processo em algumas frutas próximas. O etileno não “cozinha” a fruta nem transfere maturidade diretamente; ele é percebido por receptores nas células e altera a atividade de genes e enzimas.

Ao detalhar o mecanismo, a fonte acrescenta: “O etileno pode acelerar várias etapas que o consumidor reconhece como amadurecimento. Pigmentos verdes, como a clorofila, são degradados e outros pigmentos passam a ficar visíveis ou são produzidos, alterando a cor da casca.”

Cor, aroma e maciez mudam em ritmos diferentes

Enzimas modificam componentes da parede celular, reduzindo a firmeza da polpa. Em muitos frutos, reservas de amido são convertidas em açúcares e compostos responsáveis por aroma e sabor se formam ou aumentam. Também mudam acidez, respiração e metabolismo geral do tecido.

Ilustração editorial que mostra banana madura acelera outras frutas.
Detalhe ilustrado que ajuda a visualizar o processo descrito. (Imagem: Ilustração).

Nem toda fruta reage da mesma forma

Não. A distinção clássica é entre frutos climatéricos e não climatéricos, embora existam nuances entre espécies e cultivares. Frutos climatéricos apresentam um aumento característico de respiração e produção de etileno durante o amadurecimento e podem continuar amadurecendo de forma importante depois de colhidos. Banana, maçã e mamão são exemplos. Em muitos frutos não climatéricos, como morango, uva e abacaxi, o etileno não desencadeia o mesmo programa completo de amadurecimento após a colheita; pode influenciar cor, envelhecimento ou outros aspectos, mas não transforma um fruto colhido muito imaturo em equivalente ao amadurecido na planta.

Na aplicação prática, Ricardo ressalta: “A estratégia doméstica funciona melhor quando é temporária e dirigida a uma fruta que ainda precisa amadurecer. Aproximar um fruto climatérico maduro de outro climatérico, ou colocá-los por algum tempo em um saco de papel, aumenta a exposição ao etileno e pode acelerar o processo.”

Saco de papel acelera por pouco tempo

O ponto de atenção é que o saco também reduz a ventilação e pode reter umidade e calor, condições que favorecem amolecimento excessivo e deterioração se a fruta for esquecida. Depois que a firmeza, cor e aroma desejados aparecem, faz sentido separar os frutos e, quando a espécie tolera refrigeração, usar temperatura mais baixa para desacelerar o metabolismo. A observação diária é mais importante do que um prazo fixo, porque estágio inicial, temperatura ambiente e variedade mudam a velocidade.

Como usar a informação sem desperdiçar fruta

O primeiro cuidado é não tratar a fruteira como um ambiente uniforme. Frutos muito maduros e produtores de etileno podem ser separados dos que se pretende conservar firmes por mais tempo, principalmente quando estes são sensíveis ao gás. Vale comprar em diferentes estágios de maturação, retirar imediatamente exemplares com machucados ou podridão e evitar empilhar peso sobre frutas delicadas. Ventilação ajuda a dissipar calor, umidade e etileno; recipientes fechados podem ser úteis para amadurecer deliberadamente, mas não para armazenamento prolongado sem controle. A refrigeração deve respeitar a espécie: algumas frutas tropicais sofrem injúria pelo frio quando colocadas cedo demais em temperaturas baixas.

Na prática: amadurecer sem perder fruta

Para acelerar o amadurecimento, aproxime por pouco tempo uma fruta climatérica madura daquela que ainda precisa amadurecer e observe o conjunto todos os dias. Quando cor, aroma e firmeza chegarem ao ponto desejado, separe as frutas para não prolongar a exposição ao etileno.

Fruta muito machucada, com podridão ou odor anormal deve ser retirada da fruteira. Um saco de papel pode concentrar etileno, mas também retém calor e umidade; por isso, serve para uso breve, não para deixar o alimento fechado e esquecido.

A explicação de Ricardo ajuda a separar duas situações: usar o etileno de propósito para adiantar o amadurecimento e afastar frutas maduras quando a meta é conservar as demais por mais tempo.

Jornalista formado desde 2017, com atuação profissional desde 2015. Tem experiência em revista impressa, canais de TV aberta e mais de 12 mil publicações online. No Sabia Essa?,…

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